Ordem dos fatores

Ainda estamos na segunda quinzena de março e, numa retrospectiva rápida, este já é um dos três piores anos da minha vida…

A boa notícia: como ainda é março, dá tempo de melhorar.
A má notícia: o nível de perdas é tamanho e tão variado que não tenho a menor esperança numa reação.

Quem sabe daqui a dois meses eu inverta a ordem das duas frases finais.

Valter Caldana

Posted in cotidiano | Leave a comment

(D)escrevendo as cidades invisíveis

ou dando outro sentido ao termo e
outra compreensão ao livro

Há momentos na História em que a realidade se impõe de modo avassalador e coloca à prova toda teoria, e toda a teoria.

Por isso ´é tão importante para a humanidade, e para um país, desenvolver e manter hiperativa sua capacidade de teorização e crítica.
Para que em momentos emergenciais não tenha que começar do zero, mas tenha à sua disposição uma gama razoável de explicações e possibilidades.

Por exemplo a questão das favelas.
Existem três posições bem definidas diante delas.

Uma fortemente marcada pelo idealismo, com a qual mesmo não sendo um teórico eu me alinho, que as considera como sendo cidade. Tout court. Simples assim. E como tal devem ser tratadas.

Há uma segunda, a mais aceita e adotada inclusive pela parcela mais humanista e assistencialista do poder público que as considera proto cidades, pré cidades, quase cidades. E assim as trata.

E uma terceira, a hegemônica na sociedade e no poder público, que não as considera cidade, que as entende como algo à parte. Não cidades e, não raro, invisíveis.
Esta terceira as nega, a ponto de lhe roubarem até o nome.

Pois bem.
A realidade está aí.
Chegou na América Latina, onde as favelas são parte indelével da paisagem e do cotidiano de milhões de pessoas.
E, agora, se encaminha para a África, que o ‘estereótipo arquetípico” mundial (ocidental) considera uma grande e homogênea favela.

Já que em momentos de crise não há tempo para nuances, um destes três posicionamentos embasará, justificará e dará consistência e vigor à construção dos critérios que definirão às ações de reação emergenciais e pós emergenciais adotadas.

A crise não é hora de escolher o motorista, mas é bom saber qual a origem de seu modo de pensar para entender como ele agirá, ou conduzirá…

É, também, bom momento para observar e aprender.

De um lado aprender a teorizar mais e melhor.
E, de outro, a escolher melhor.

Valter Caldana

Posted in cotidiano | Leave a comment

SUS to, SUS pense, SUS tento, SUS piro

ou a infinta capacidade de
não enxergar o que se vê sim.

Governo libera parcela emergencial de R$10.000.000.000,00 ou Us$ 2.000.000.000,00 ou dois bilhões de dólares (que poderia ser no mínimo 50% maior, ou seja 3.500.000.000,00 três bilhões e quinhentos milhões de dólares, se a política cambial do governo fosse mais responsável, mais patriota e menos leniente e permissiva, além de algo incentivadora do ataque especulativo contra nossa moeda).

O que a sociedade precisa querer entender, pois saber todos sabemos, é que todo o sistema de saúde é público.

Sim! Todo o sistema de saúde é público, criado, financiado e sustentado essencialmente por dinheiro público. E, a maior parte, a quase totalidade deste dinheiro é oriundo do orçamento vinculado da saúde (dinheiro carimbado, portanto), levado à sua destinação final via sistema único. Sistema Único de Saúde, SUS para os íntimos, sejam eles os necessitados, sejam os beneficiários, sejam os profissionais, sejam os escroques, sejam os corruptos.

Sim, praticamente todo o dinheiro é público. Como esta parcela de Us$ 2.000.000.000,00 dois bilhões de dólares. O que é privado é só o rapaz do caixa. O gerente.

De modo geral, o sistema é público em tudo o que seja para além da linha de frente e antes da hotelaria. Ali, onde o bicho pega, onde pesquisas caríssimas, equipamentos com preços inimagináveis, tecnologias interplanetárias e profissionais adestradíssimos e com formação de décadas estão presentes, a essência do financiamento e do custeio é pública.

E, o que não é diretamente público, é custeado diretamente pelo cidadão. Escolas de medicina caríssimas, planos de saúde caríssimos, consultas médicas caríssimas, remédios caríssimos…

Enfim, sendo quase irremediavelmente simplista, o sistema é público como acontece ser em tudo quanto é tratamento que seja mais complexo do que “tome duas aspirinas, controle a febre e me ligue se houver mudança do quadro”.

Ou, como diria um mais ‘iniciado’: se a dor for forte e do umbigo para cima, é potencialmente grave. Melhor ir no PS do HC.

Valter Caldana

Posted in cotidiano | Leave a comment

Respeito que se dá-se.

O nível do desrespeito da declaração do embaixador chinês é a exata medida do nível de respeito a que se nos dá a atual Diplomacia Brasileira e mede a nossa importância no mundo neste momento.

Outro dia um diplomata alemão estrelado disse que um outro país estava de ‘saco cheio’ do Brasil.
Os americanos assumem rapidamente o tratamento de senhores de serviçais e subalternos a que nos oferecemos.
A Europa já voltou a nos tratar como exóticos, aves plumadas, como fez nos últimos 480 anos.
Detonamos os BRICs
A África, de língua portuguesa ou não, desistiu de nos esperar.
O Messi e o Papa são argentinos.
Não tem mais piloto brasileiro na F1.
Pelé está doente e no ocaso
Neymar é neymar.

Game Over

Valter Caldana

Posted in cotidiano | Leave a comment

O novo velho

Caros compatriotas, precisamos amanhã tirar lições do momento que atravessamos, questionar o modelo de desenvolvimento que nosso mundo escolheu há décadas e que mostra suas falhas à luz do dia, questionar as fraquezas de nossas democracias. O que revela esta pandemia é que a saúde gratuita sem condições de renda, de história pessoal ou profissão, e nosso Estado-de Bem-Estar social (État-providence) não são custos ou encargos mas bens preciosos, vantagens indispensáveis quando o destino bate à porta. O que esta pandemia revela é que existem bens e serviços que devem ficar fora das leis do mercado. Delegar a outros nossa alimentação, nossa proteção, nossa capacidade de cuidar de nosso modelo de vida é uma loucura. Devemos retomar o controle, construir mais do que já fazemos, uma França, uma Europa soberana que controlem firmemente seu destino nas mãos. As próximas semanas e os próximos meses necessitarão de decisões de ruptura neste sentido. Eu as assumirei. Macron»

Macron começou bem, se perdeu e agora está ganhando uma segunda chance para emergir como a liderança do início do século XXI que prometia ser capaz de apontar caminhos de superação das contradições que levaram ao colapso do sistema vigente.

Perdi muito da confiança de que ele consiga pois fez concessões demais na estruturação modernizadora das reformas (da previdência especialmente) na França. Concessões aos cortes puro e simples.

A “antiquada” Merkel, democristiana de boa cepa, forjada atrás do muro e que fala russo fluentemente, discípula de Adenauer, continua dando um banho nele e em toda a Europa e, logo atrás do portenho Francisco, está entre os dois únicos líderes mundiais dignos deste rótulo neste momento.

Valter Caldana


Posted in cotidiano | Leave a comment