É de chorar…

Já estamos em pleno ano eleitoral.

Qual será a candidata ou candidato que conseguirá ao mesmo tempo colocar na pauta e levar adiante as urgentíssimas questões urbanas, na escala humana, desviar das questões nacionais sem provincianismo e, desafio dos desafios, fazer despertar nos cidadãos o sentimento de paulistanidade, aquele que mistura de maneira sublime e quase única no mundo vigor, acolhimento e capacidade infinita de sonhar?

Boulos | Suplicy | Márcio | Bruno | Andrea | Datena | Joyce

Diante dos nomes acima, a resposta me parece facílima…

(e, então, uma lágrima triste escorreu lenta e discreta de seus olhos aparvalhados…)

Valter Caldana

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SUS, a SÓS

ou a eterna reação de
trucidar o que
não se conhece

A política pública na área da saúde é das que mais diretamente impacta na sobrevivência e na qualidade de vida do cidadão.

A participação da Arquitetura e Urbanismo na sua formulação e implantação é essencial. Localização, acessibilidade, fluxos, dimensionamento, custos, capacidade de atendimento, agilização, segurança dos equipamentos e dos usuários, enfim…

Direito à cidade inclui direito à saúde.

Noto pelas conversas com amigos que pouquíssimos sabem que mesmo pagando as fortunas que pagam por seus planos de saúde, todos eles são absolutamente dependentes do SUS. Isto se aplica, inclusive, aos menores procedimentos.

Observo, também, que não sabem que se não fossem usuários indiretos do sistema os preços de seus planos de saúde seriam ainda mais altos, muito mais altos, condenando-os, certamente, a apelar à fila do atendimento público que, então, já não existiria. O atendimento, não a fila. Esta, por certo, estaria ainda maior.

Por questões profissionais, durante anos convivi neste ambiente e estudei arquitetura hospitalar. Ali pude acompanhar e conhecer a importância do sistema. Desde o instante em que o paciente ou sua família chama uma ambulância num momento de desespero, até a hora em que ele usa um equipamento digital on line baseado em energia nuclear, na outra ponta do momento de desespero.

Ademais, acabo de sair de uma experiência fortíssima ajudando a cuidar de minha mãe, em estágio avançado de suas doenças.

Em que pese seu convênio de primeira linha, eficientíssimo e que propiciou toda a retaguarda hospitalar para garantir cuidados e conforto, nestes anos todos por diversas ocasiões tivemos que recorrer não apenas indiretamente, mas diretamente ao sistema público. E sempre fomos atendidos também com muita eficiência.

Utilizamos desde material de consumo até aparelhos respiratórios caríssimos, passando, claro, por remédios que custariam preços que nossa família não teria como pagar.

Santa fila, onde todos são iguais não perante a Lei, mas perante a dor.

Mesmo no hospital, é importante saber que para além do serviço de hotelaria de primeira linha que é garantido pelo sistema privado, muito do que se tem nos bastidores efetivamente médicos tem a participação do SUS pois, afinal, se trata de um sistema..

Voltando à sua imagem pública, é triste que os assim chamados formadores de opinião formem a sua própria baseados nas abomináveis filas de atendimento nas portas de hospitais públicos que vemos e temos notícias cotidianamente. São perversas, são desumanas e são injustificáveis.

Mas, são explicáveis. Facilmente explicáveis. Se devem essencialmente muito mais a problemas de opção, escolha dos governantes e de gestão específica e pontual do que a problemas estruturais do sistema.

Tenho para mim que se tivéssemos, no Brasil, construído para a educação básica, para a habitação e para o saneamento sistemas à semelhança do SUS, com sua universalidade, complexidade e profundidade, hoje estaríamos colhendo outros frutos, saudáveis, ao invés de assistir a esta tosca tragédia terceiromundista a que nos auto condenamos.

Entretanto, não conseguimos passar do PAC, do MCMV e do FUNDEB, sem os quais estaríamos muito, mas muito pior, mas que são primários diante das qualidades do SUS e insuficientes diante de nossas monstruosas urgências.

Porém, tudo isso é, no fundo no fundo, e não nego, intervencionismo.

O que, num país que se descobriu liberal e numa sociedade que considera que carga horária de 14 horas diárias é sinal de esforço pessoal e que cadáveres insepultos nas calçadas são apenas o testemunho de quão vagabundos e fracassados são aqueles pobres diabos a atrapalhar o passeio, isso tudo que escrevi acima é palavrão.

E politicamente incorreto. Que venha a privatização do sistema.

Como sempre, pelo menos alguém vai ganhar muito, não é mesmo.

Valter Caldana

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Sobre planos e projetos

ou mais uma eleição virá
e nada mudará

Acredito que São Paulo seja uma cidade minuciosamente planejada e perversamente mal desenhada.

É planejada para ser exatamente como ela é, seguindo a lógica do mais puro extrativismo urbano, da ocupação de terra barata, do espraiamento e da exclusão. É planejada para que ganhem os que ganham. Custe o que custar.

Ou alguém acha mesmo que isto tudo, a retificação dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, o tamponamento desenfreado de córregos, a construção das marginais, a abertura das grandes avenidas de fundo de vale cada vez mais largas e longas, indo a lugares cada vez mais remotos, a extinção dos bondes e a implantação de uma malha de transportes sobre pneus e movida à diesel, a lentidão da implantação do metrô (que ficou parado de 1920 a 1968 e depois de 1980 a 1994, quando suas obras recomeçaram, na velocidade que conhecemos) aconteceu e acontece de modo isolado, aleatório e espontâneo? Sem planejamento. Sem obedecer a uma lógica e uma claríssima e objetiva visão conceitual do que é, para que serve e como deve ser construída a cidade?

Isto sem falar do Plano Prestes Maia, rigorosamente vigente até hoje e introjetado em nossa visão urbanística, em que pese os esforços do PUB (1968) do PDE de 1885 e do PDE de 2014. Não por acaso ele sempre vence…

Não é sem planejamento, ou por acaso ou por coincidência que a Lei de Zoneamento tem a mesma estrutura desde 1972!!!! E hoje pouco tem a ver com o PDE do ponto de vista conceitual. Nestes 50 anos, meio século, só é alterada pontualmente, para ajustar-se a necessidades conjunturais do planejamento estrutural.

Insisto nisso há muito tempo. Enquanto se reproduzir esta ideia cômoda, equivocada e autoindulgente de que a cidade cresceu sem planejamento, o modelo de desenvolvimento urbano paulistano nunca será efetivamente alterado. Será sempre discurso oco ou intervenções perfunctórias, paliativas e graciosas (ainda que necessárias).

Os PIUs, que poderiam ser (e deveriam ter sido) um instrumento para se contrapor e amenizar a dureza, a rudeza e a crueza da materialização deste planejamento, propiciando a realização de intervenções locais baseadas em projetos na escala humana foi rapidamente fagocitado e transformado em apenas mais um instrumento para a perpetuação do modelo…

Os planos de Bairro nunca vieram, os Projetos Locais tampouco… Ao contrário, se investe em Planos Setoriais enormes, em Planos Regionais (2004) imensos…

Voltando ao início…

Basta ver o que aconteceu com a Rebouças e o que não aconteceu com o arco Tamanduateí. Basta ver o que aconteceu com a Operação Urbana Faria Lima e o que não aconteceu com o Projeto BairroNovo na Água Branca…

Basta ver a triste insistência na revisão precoce e prematura da Lei de Zoneamento. Tudo isso segue um script que está escrito há quase um século, pelo menos 90 anos…

Bem planejada, mal projetada e pessimamente construída…
Esta é uma boa conversa para ano eleitoral… 

Pena que o assunto não vai ser este.
E o planejado, seguirá intocado.

Valter Caldana

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Hoover Américo

Não está fácil não…
Nos deixou Hoover Américo Sampaio.
Um professor e amigo.

Uma perda irreparável!!!
Um ideólogo da evolução da Faculdade (Arquitetura Mackenzie), sua contribuição para a construção de nossa identidade tem um valor inestimável.

Fui seu colega de disciplina durante anos e tive o privilégio de aprender muito com ele.

Contrastando com suas aparentes características pessoais, sempre muito discreto, foi um arquiteto à frente de seu tempo, em especial no que diz respeito à antevisão das possibilidades de operações e intervenções urbanas de pequeno e médio porte com a utilização inteligente da capacidade de investimento do mercado imobiliário, que perseguimos ainda hoje.

Incompreendido na barafunda ideológica brasileira, teve que esperar anos e anos para ver suas ideias ganharem amplitude e ressonância, muitas vezes creditadas a outros profissionais ou grupos.

Ontem mesmo passei diante de um de seus últimos projetos, já parcialmente demolido para dar lugar a um grande empreendimento imobiliário de uso misto na Avenida Rebouças e pensei muito nele, no quanto ele defendia a ideia de que o mercado imobiliário se organizar para fazer cidade de boa qualidade não custava nada além de boa conversa e bons projetos… Ainda não vimos desta vez, mas este dia chegará, pensei.

Hoover foi um dos artífices da retomada da prática do desenho urbano enquanto atividade essencialmente projetual e na escala urbana e acima de tudo na escala humana.

Reintroduziu seu ensino na sua FAUMack do coração através da então inovadora experiência nos 7º e 8º semestres, que só ocorreu graças à sua capacidade de formulação, tenacidade e perseverança. Além da confiança que passava a nós, seus jovens auxiliares.

A FAUMackenzie perde um de seus mais importantes membros, que ficará eternamente em sua história. A arquitetura e urbanismo paulista e brasileira perdem um de seus mais sensíveis profissionais e formuladores, que se dedicou com prazer e profundidade a três programas especialíssimos: residências, hospitais e igrejas.

E perdemos todos um mestre da profissão, um professor e um amigo leal e solidário. Além de um incomparável contador de histórias e piadas.

Hoover certamente vai em paz e nós sentiremos muitas saudades.

Valter Caldana

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Aos amigos

Caríssim@s*

Nem sei como começar a agradecer o carinho, as mensagens, telefonemas e a presença de vocês neste momento tão difícil.

Nos conhecemos todos aqui há 40 anos e isso significa simplesmente, na prática, a nossa vida inteira.

Vida acaba sendo, para quem vive, o tema principal na hora da morte. Não tem como não ser pois é nela, na vida, que temos que nos agarrar para superar a angústia, a melancolia, o medo do que virá após a morte de uma pessoa próxima, querida, vital.

Já somos grandinhos, rodados, virados, experientes… Mas nada consegue nos deixar preparados para este tipo de perda, todos sabemos. Mas sabemos também que a presença, em todas as formas, das lembranças de toda uma vida vivida com a pessoa querida que nos deixa é a melhor maneira de superar os sentimentos ruins que nos assombram.

E, destas lembranças, todos e todas aqui desta lista fazem parte indissociável e, nelas, estiveram presentes em todos estes dias.

Muito obrigado pelo carinho, pelo apoio, pela presença, pelo abraço apertado e acolhedor.
Não nos esqueçamos que somos verdadeiramente privilegiados por esta proximidade e por compartilharmos … vida!

Um abraço e um beijo fraterno no coração de cada amiga, d ceada amigo aqui deste grupo tão vivo!

Valter Caldana

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* Escrito originalmente em agradecimento às
manifestações de pesar dos colegas de faculdade
pela morte de minha mãe, Maria Ap. Baccega.
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